05
Mar
08

Minha primeira vez, com o locutor.

Houve uma época que ouvia rádio direto. Sabia o nome de cada locutor, horário de entrada e saída, seus estilos de falar etc.

Mas um em especial me chamou a atenção. Ele trabalhava das 22 às 2 da madrugada e tinha uma entonação sensual na voz…   Engraçado como passamos a imaginar a  pessoa trabalhando, sua forma de se vestir, a boca. Enfim, idealizava aquele locutor.

Alguns meses se passaram, até que rompi meu namoro às vésperas do ano novo. Minha virada de ano foi pisando no astral.Enquanto brindavam e comemoravam, me isolei com meu walkman e sintonizei a rádio. Advinhe quem estava no ar, bem naquela hora? Sim, meu locutor preferido!

Não resisti e liguei para o telefone de ouvintes – coisa que nunca havia feito antes – e deu ocupado. Mais uma tentativa e  chamou…
- Rádio Tal, bom dia! – senti um gelo na barriga… era  ele em pessoa atendendo ao telefone.
- Er… oi! eu te liguei para desejar Feliz Ano Novo! Você nos desejou e queria retribuir.

Ele ficou mudo por instantes e depois respondeu, suspirando:

- Olha meu anjo, nem sei como agradecer. Estou sozinho aqui na rádio, nem meu pai pude trazer para passar a virada comigo. Falamos para nem sei quantas pessoas, mas trabalhar em uma data como essa me deixou com um vazio imenso. Por isso, você nem tem idéia de quanto seu telefonema me fez bem!

Foi minha vez de ficar sem palavras… Mas continuei na mesma linha de sinceridade:
- Pode estar certo que compreendo muito bem o que você está dizendo. E como dói!
- Duas solidões juntas passam a ser companhia. Me dá seu fone que eu te ligo, assim você não gasta pulsos.

Foi assim que começou. Nos falamos até duas da manhã, porque ele saiu do ar. Depois me ligou de outro fone da rádio, conversamos até as 6 horas. Duas da tarde do dia  primeiro, ele me ligou de novo, para me desejar um bom dia e avisar que estaria no  ar de  novo, as 22. As 22 ele me ligou e nos falamos até 2 da manhã de novo. E isso virou rotina. Ouvi-lo anunciando  e  desanunciando música, dando notícia em off.

As vezes o coordenador da rádio ia pra lá de madrugada e ele não podia me ligar. Nesses dias, ele sempre dava um jeito de mandar um recado.

- Seal, Crazy – vai pra você que está em casa esperando que ele te ligue.
- New Order, Perfect Kiss – você já deu o beijo perfeito? Pode ser que ele esteja prestes a acontecer…

E eu me sentia feliz, confortada com aquelas demonstrações de afeto. Ele sempre se fazia presente e não tinha segredos pra mim… em um mês eu sabia da vida toda dele, já batia papo com o pai dele quando ligava em sua casa, sabia da ex-noiva que o havia deixado, que ele era de MG, que apesar de trabalhar em uma rádio pop adorava Roberto Carlos e jogava futebol com os amigos de 4a feira, antes do trabalho. Ah, e tinha 25 anos.

De mim, ele sabia que estava no primeiro ano da faculdade, estava prestes a completar 18 anos, era vocalista de banda e trabalhava em uma agência de publicidade.

Conforme o tempo ia passando, a curiosidade em conhece-lo foi ficando gigantesca. Mas como ele nunca tocava no assunto, fui deixando passar. Mas quando chegamos aos 3 meses de conversa, não resisti. Perguntei se ele não queria me conhecer. Ele respondeu que tinha medo que eu o achasse feio e desaparecesse da vida dele. Fiz aquele discurso típico de pessoa politicamente correta, de que eu me importava mais com o conteúdo, etc etc, mas no fundo senti medo de estar envolvida com um cara muito feio sim. Foi aí que senti maior ainda a urgência de conhece-lo.
Por ajuda do destino, a agencia  precisava de um locutor para um comercial. Normalmente, chamávamos alunos do SENAC porque saia mais barato o cachê, mas  como era um cliente grande, sugeri chamarmos uma voz conhecida. Toparam, na mesma hora liguei pra ele, combinando o job para o dia seguinte.

Acho que nunca fui tão arrumada para a agência. E nunca o dia passou tão devagar e nunca me olhei tanto no espelho. Pois bem, chegou a hora, me avisaram que ele estava na recepção.

Ele era baixinho, pouco maior que eu. Magro, não tinha uma beleza exótica. Mas não era o feio que ele dizia. Charmoso e cheiroso demais. O abracei e em seguida fomos para o estúdio. Ele passou o texto e gravou rapidamente. Ficou ótimo, o cliente  ficou satisfeito, meu chefe idem. Profissional é outra coisa… normalmente os novatos passavam horas para pegar a alma do comercial, era cansativo. Foi assim que ele virou cast da agência. Muitos comerciais foram feitos por ele.

Naquele dia, ele me ofereceu carona pra casa. Foi muito respeitoso, disse que adorou me conhecer. Na hora de ir embora, beijo no rosto. Meu mundo caiu! Era ele quem não tinha gostado de mim! As 22 horas meu telefone não tocou,não houve recadinhos na rádio pela primeira vez em 3 meses. Chorei muito, chorei absurdamente até dormir, com o fone no ouvido. Três dias de silêncio depois, resolvi ligar pra ele, esclarecer.

Qual não foi minha surpresa ao ouvir dele “desculpe, eu fiquei com medo de tomar um fora, de me machucar de novo… não suportaria. Por isso, achei melhor sumir de você”.

Pedi a ele que esperasse por mim as 2 horas na porta da rádio. Queria conversar olho no olho.
Peguei a moto da minha amiga emprestada (que eu já dirigia há 2 anos, mesmo  sem carta) e fui até ele. Cheguei uma hora antes do combinado, estacionei a moto e avisei na recepção que o esperaria na porta.

O segurança que estava de plantão – que tinha mania de cupido – avisou que só estava o locutor e que eu poderia subir, que qualquer problema eu dissesse que era prima dele, informando que a tia havia morrido, enfim, desse uma boa desculpa.

Subi os degraus com o coração saindo pela boca. Cheguei no aquário e fiquei olhando pela janela. Ele de fone no ouvido, em frente a uma mesa com infinitos botões deslizantes… Quantas vezes dentro de mim, tentei imaginar aquela cena…

De repente, ele virou. Abriu um sorriso enorme e correu ao meu encontro. Recebi um abraço abertado, sem palavras, seguido de um beijo que parecia nunca acabar.

- Meu pequeno anjo… -ele falou, enquanto me olhava com ternura.

A música estava acabando e ele correu de volta para a mesa, me puxando pela mão. Trocou de música, de pé mesmo, programou a seguinte e sorrindo sussurrou: “onde paramos?”

E nossos beijos foram interrompidos diversas outras vezes por músicas, comerciais e notícias.

Quase acabando o horário dele, o telefone tocou. Era o coordenador, avisando que o locutor seguinte estava com faringite e não poderia ir. A proposta era que  ele ficasse no  ar até as 6 horas e ganhasse o final de semana de folga. Ele aceitou, me olhando com malícia: “Parece que a noite é nossa”.

De repente a meiguice se tornou vulcão. Lábios, línguas, mãos, roupas abrindo… ele me pegou no colo e me sentou na mesa perto dos botões: “aqui posso te acariciar mesmo quando precisar entrar no ar…”.

Fiquei tão envolvida pelo ambiente, pelo momento, por aquelas músicas que se tornaram tão nossas… Havia um pouco de mim e dele naqueles botões. Havia cheiro meu em cada on/off.

Ele explorou cada pedacinho de mim, sem pressa. Brincou que o locutor da manhã ia sofrer pra trabalhar ali, com o cheiro bom de sexo que estávamos exalando no ambiente.

Depois de receber, era a minha vez de acaricia-lo. Ele se sentou na cadeira, abri sua calça e comecei a chupa-lo. A música acabou e ele precisava desanunciá-la. Com a falta de experiência que eu tinha na época, ao inves de parar e esperar,continuei.

A voz dele foi a coisa mais engraçada do Universo. Saiu suspirada, prolongando as últimas sílabas. Precisei segurar para não rir. Quando ele desligou o microfone, levantou minha cabeça e disse sério:

- Menina, quase que eu solto um gemido no ar! Como você pode fazer isso comigo? Agora você vai ver só… essa música tem 12 minutos. Você está ferrada!

Entre risos, me jogou no chão, pulando em cima de mim. Era o momento que eu temia. Quando percebi que ele ia penetrar, soltei a frase mais broxante do universo: “Sou virgem, seja delicado…”.

Por um momento senti seu tesão indo embora, o pau amolecendo entre minhas coxas.

- Porque você não me disse isso antes?
- Porque eu quero que seja com você. Quero que seja agora.

Ele se levantou e me puxou pela mão.

- Você tem certeza que quer?
Balancei a cabeça que sim.

- Então espera. Vou colocar uma música especial para você nunca se esquecer deste momento.

Achei que ia ser alguma da programação… mas ele colocou em off uma do Roberto Carlos que dizia “Tudo para quando a gente faz amor”. Brega até o infinito, mas achei fofo. Simbora pro sofá de courino, que pra ajudar grudava na minha pele e fazia um barulho horrivel.
Demorou um pouco para voltarmos ao fogo inicial, acho que o Roberto não colaborou, exigia romantismo demais, beijos, olhares e mão na mão. Ainda bem que acabou em 3 minutos. Lá foi ele na saga “troca música, põe musica”. Foda em etapas, eu diria.

Foi então que rolou a música certa: Indecent Obsession, com Kiss Me.
O pega rolou bem, beijos profundos, lambidas e gemidos. O problema foi que ele ficou empolgado demais e me penetrou com força.

Minha reação foi empurra-lo, num gemido de dor. Ele parou, esperou um pouquinho, foi de novo. Brasileiro, não desiste nunca. Por fim, foi. Não senti prazer algum, achei que devia ter parado nos amassos, mas não disse isso pra ele. Fora que olhar pra camisa dele suja de sangue foi constrangedor.

Dei a chance dele repetir a dose dias depois na casa dele, como presente de aniversário pra mim e um tira-teima. Dentro de mim, achava que sexo era uma merda… Ele foi romântico, preparou o clima todo, mas o Roberto Carlos lá estava presente, como que a  nos observar rindo e repetindo: “Bicho, são tantas emoções”.


6 Respostas para “Minha primeira vez, com o locutor.”


  1. 1 ANDERSON MARQUES
    Agosto 20, 2008 às 8:22 am

    ooooooooooooooo louco eu trabalho no radio e isso nunca aconteceu comigo…atér mesmo pq onde trabalho tem camera pra todo lado…agora que essa historia foi louca foi…kkkkk

  2. 2 Sarah Deever
    Setembro 2, 2008 às 2:04 am

    Anderson, nessa rádio não tinha câmeras. Agora tem. Demos sorte… rsrs
    Beijo!

  3. Outubro 8, 2008 às 10:58 pm

    radio ainda tem dessas coisas, sou locutor do interior do parana e comigo ja aconteceu algo mais ou menos assim…

  4. Dezembro 21, 2009 às 1:17 am

    Cara!!! Muito bom o texto!!! Muito bom o blog!!! Vc escreve muito bem!!!


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